Doar e continuar usando: como isso funciona?
“Quero transmitir o imóvel, mas continuar morando nele.” Ou: “Preciso manter os aluguéis para minhas despesas.” Essas intenções podem levar à avaliação de uma doação com reserva de usufruto.
Nessa estrutura, quem recebe fica com a nua-propriedade, enquanto o usufrutuário conserva direitos de uso e fruição, nos limites do instrumento e da lei. O STJ reconhece esses efeitos ao analisar a reserva de usufruto em uma doação. [2]
Antes de discutir a cláusula, porém, vale compreender a razão da transferência e o que o doador precisa preservar para sua vida.
O usufruto não mantém tudo como estava
Doar é uma decisão patrimonial relevante. A reserva de usufruto não significa continuar sendo o proprietário pleno nem poder desfazer a transferência apenas porque houve mudança de vontade.
Por isso, a conversa deve incluir o que pode acontecer depois: necessidade de recursos, eventual venda, despesas de manutenção, uso por terceiros e mudanças nas relações familiares.
Depois da transferência, quais decisões e necessidades ainda precisam ser atendidas? O documento deve ser analisado considerando esse cenário.
Quais cuidados olhar em relação à família?
A doação precisa respeitar limites sucessórios e preservar a subsistência do doador. O Código Civil restringe a doação de todo o patrimônio sem reserva suficiente e a parcela que excede o que poderia ser disposto em testamento. [1]
Na análise, importam o patrimônio total, os vínculos familiares, as doações anteriores e a intenção de quem transfere. Um documento isolado pode não mostrar toda a situação.
O objetivo é compreender os efeitos para quem doa, para quem recebe e para as relações familiares, antes da assinatura.
O que precisa ser conferido no imóvel?
- Titularidade: quem aparece como proprietário e como o bem foi adquirido.
- Registro: matrícula atualizada e eventuais restrições.
- Uso: se há moradores, contrato de locação ou outras situações a considerar.
- Família: regime de bens e participação das pessoas envolvidas.
- Histórico: instrumentos anteriores que se relacionem com a transferência.
Essa lista serve para orientar a primeira organização, não para substituir a análise documental. Se houver uma irregularidade, ela deve ser examinada junto com o planejamento.
Há custos e providências além da escritura?
É necessário verificar os tributos, os emolumentos e os registros exigidos. A estimativa deve considerar a localização do imóvel, os valores pertinentes e a estrutura escolhida.
Não é responsável afirmar que toda doação reduz custos ou que o usufruto elimina tributação. A comparação com outros caminhos deve ser feita antes da decisão.
Peça uma explicação sobre cada despesa e sobre as etapas após a assinatura. Compreender o procedimento evita confundir a preparação do instrumento com a conclusão de toda a formalização.
Como decidir se essa alternativa faz sentido?
Comece por três perguntas: o que quero transmitir, o que preciso preservar e por que quero fazer isso agora?
Depois, compare a doação com as outras possibilidades de planejamento. Testamento e organização societária podem cumprir objetivos distintos, e nem sempre a transferência imediata é a solução adequada.
A orientação jurídica ajuda a transformar a intenção em uma decisão consciente, com clareza sobre os efeitos e as providências.
Fontes e referências
- Código Civil — doação e usufruto, especialmente arts. 548, 549 e 1.390 a 1.410.
- STJ — reserva de usufruto e manutenção dos direitos de uso e posse no caso examinado.
Conteúdo informativo. Não substitui a análise dos documentos e das circunstâncias de cada caso.
